(água)

Eu oiço. Invejo as pessoas que amam e transfiguram, aquelas que levantam o céu com a sua voz quando figuram os próximos caminhos; querem que isto seja aquilo, querem que a pedra sofra, que uma flor nunca se sujeite a ser pisada, querem que a palavra gaste todas as fontes e que corte as vértebras das nuvens. Elas amam, elas transfiguram, e eu oiço. As cores chegam-me aos olhos já síncopes, as frases expiram no meu rosto, e esqueço-me das maleabilidades; o pensamento enlaça-me em sonhos, fios lânguidos que vou puxando como o Bernard, mas o corpo coíbe-me de os transmitir; a palavra sonha com liberdades, e se lhas entrego, perde com que sonhar. O silêncio em que me tranco despe-me os sentimentos, como se fossem roupas de contornos transparentes, mudos. O silêncio em que me tranco conjura outros, colapsa dentro de si mesmo, e por momentos, quanto tento falar, transfigurar, amar, vejo tudo como quem vê uma planície inundada, as casas tesseladas pelo frémito das águas, os bancos perfundidos por longas algas, e as flores, intocadas pela graça dos ventos, morrem puxadas pelo próprio mundo. Tudo é lento e desmedido, tudo é tanto e tanto corre despercebido, morcegos desfocados pelo negrume nocturno, mochos diluídos no remorso da sua quietude. A garganta morre. O espírito elude eternamente a escolha de amar, de transfigurar. Há quem tenha nascido para ouvir, e ainda há a poesia.

(xerox)

É profícuo objectivar o Homem, colocando-o em prateleiras de pinho, dentro dos tomos da imaginação repletos com a dureza das suas extremidades. O «fracasso» do Homem torna-o evidente e rutila como um rúbi; o fracasso das estruturas humanas, que olham para o mundo e vêm apenas os padrões, vêm apenas a instrumentalização dos padrões, para que sejam domesticadas, para que sejam algemadas a si próprias, sendo que das guelras do universo sangra o extracto das suas leis, o cálculo de fumo que nos desintegra, o cálculo que imaginamos replicar, nas nossas construções, nos nossos padrões, enquanto desintegramos tudo o resto. O Homem é, portanto, uma máquina de tradução. Um objecto animado cuja única perspectiva de «vida» (para além da maquinaria supostamente viva onde habita), é a da deviação. Mas deviar é elouquecer; nenhuma máquina sobrevive fora da programação, então elouquecer é morrer, outra geometria de desintegração. O canal, não obstante da sua direcção, não obstante de serem milhares sobre milhões de canais, dá-nos um só destino, uma costa fria onde os ventos são elásticos e sufocantes, onde as bétulas são comidas pelo negro das suas raízes, onde a areia não levanta de tão tórpida e humedecida, onde olhamos, lá no fundo, a boca delocada do horizonte abrindo, abrindo, milhares de milhões de túneis, todos maquinados, determinísticos, assoladores. Custa-nos pensar, ajoelhados sobre a espuma congelada da costa, que fomos objectos de replicação, que fomos copiadores de existências tão inóquas como as nossas, e perfilhar dessa visão algo que não tenha a dureza de um rúbi. Custa-nos pensar que, mesmo como objectos, não conseguimos observar um propósito objectivo na boca cálculista do universo; mas, pensando nos objectos, quantos deles não partilham essa qualidade?

(paladar)

A fome da alma, essa que não tem as propriedades fisicas da dimensão, é a aduela do sentimento, que de maneira alguma carece das mesmas. Eu desenho, com estes dedos pintados de estrelas negras, uma forma bonita de figurar a fome — a falta. O desenho é a guarnição do sonho, o aro, o portal até à frente nocturna que avança, nos seus estertores crónicos, na sua glória fria e programada de apenas avançar. Alimento-me destes símbolos vazios como se fossem quadros paisagísticos, naturezas mortas e naturezas vivas, coisas inermes e pendulares que se seguram em malhas lúcidas, e injecto neles toda a falta em que me absorvo, de frente ao painel vespertino, olhando para ele, para os universos pulsantes que constelam a distância entre a fome e a alma, o sonho e a falta, entre o objecto e o movimento, e desenho, em mim, como se o meu interior fosse uma arquitectura de paredes brancas infindas, a morfologia das diferenças; outra mensuração do negro.

A associação corre, então, como a lebre no silvado, e ondula, um lumaréu no meio do oceano; as palavras libertam os seus incensos e todas são peremptórias, ou parecem ser, quando caem no poço soturno da falta, sons síncopes e transuentes cujas vísceras se agarram a um silêncio que as rompe e tortura, um silêncio inconsútil, anestesiado, imortal. Vejo uma árvore que é uma sombra, uma aparição vazia de árvore. Foi uma árvore que o meu pai terá plantado, e cresce, firme, contornada pela vibração das esferas. A paisagem negra absorve-me; sou teu, árvore. Sou meu, sou teu. Não há nada sem mim, não há nada em mim senão paredes brancas e desenhos de estrelas negras; não te vejo em lado nenhum; o sentimento acomete-me a essa falta, e guia-me à frente nocturna onde essa falta é absoluta.