a Schiele por João-Maria

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Retrato do pintor Anton Peschka por Egon Schiele

Ouve atentamente:
as cigarras conspurcam o vento, lâminas
inquietas. As folhas flamejam
em pequenos espásmos.
O mundo torce-se de mortes;
todo ele é dor e gritos,
todo ele é agonia e arena;
o teu sorriso é cremado
pela sua teimosia.

A infinitude da expressão
está na geometria. Para sempre
densa, para sempre
ângulando-se num adeus
desnatural. Ouve atentamente:
o homem, o seu silêncio
de manufactura. O seu silêncio
de extinção.

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a Dzubas por João-Maria

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Aurora, 1977, Friedel Dzubas

A aurora corre sobre mim
como quem pinta. Foste lento
na erosão dos conceitos.
Há tanto que ainda te magoa.
Há um bicho dentro de ti
alimentando-se de lágrimas
que não sabes donde brotam.

Vais a um subterfúgio, quem sabe,
um pavilhão abandonado, inspiras
o pó, cortas arquitecturas de pele
dentre os feixes. Tocas na ferrugem
enquanto universos colecionam,
dentro de ti, feridas que se abrem
infinitamente; horizontes. O sangue
jorra através de ti, prismático,
uma aurora, e tudo pende
com o peso dos teus mundos
feridos.

Tu és o abandono,
a lágrima,
o bicho.

Mas isso é apenas
o que tu és.

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a Freydanck por João-Maria

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Schloss_Sanssouci_mit_den_Terrassen-C105 Schloss Sanssouci mit den Terrassen, Carl Daniel Freydanck, 1843

— Gostava de ter tocado no palácio de Sanssouci, de exultar um corpo numa valsa pungente quedando sobre uma construção de sons, um edifício implodido; é isso, a devassidão, vergonhas extensas e acutilantes, ser-se vulgar mas acometido duma energia extrema para mergulhar nos aromas mais profundos. Entristece-me, sabe? Há coisas… Pronto; os ciclos solares na carne, tessituras e lamentações várias, ver os materiais físicos deste domínio a colapsar, esperar pelas chuvas, observar a época dos pássaros, o rútilo das asas silvestres, da solidão e do silêncio, e… Quem sabe. Não tanto. As coisas não são como elas são, são outras e outras, aquilo e aquilo, mas nunca isto. Lembra-se de ser pequeno como um feijão?, receber os pilares de luz que sustentam as horas, perscrutar o tecido das coisas e encontrar apenas a imagem, o pequeno tilitar das pérolas, aquelas sedas…

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a Miró por João-Maria

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Screenshot 2020-06-28 at 10.35.06 Terra llaurada, Joan Miró, 1923-24

Há tanta cor adestrada pelo punho
que delas conjura substância,
tanta forma
vencida e por vencer.

E tu, afinado à afinação de tudo isto,
virás ao vermelho do apodrecimento
ou ao verde da loucura, já
de joelhos húmidos,
e perguntarás
por aquele dia monocromático
e disforme, aquele dia que,
como um cordão de linho negro
te espreme de palavras;
perguntarás sempre
e saberás tudo,

e esse tudo estará gasto, traumatizado;
caravelas farão ninhos nas praias,
abandonadas,
perguntarás o que lhes sucedeu
e saberás tudo,

o tudo será este ponto de luz, esta fonte
de noites pespontadas, esta modorra
soturna que captura os pensamentos
e os lança uns contra os outros;
o tudo estará exausto, inerme,
as andorinhas farão cemitérios
no imo marinho — turbas
da crueldade infinda
das cores e das formas.

Perguntarás pelo teu lugar
nisto tudo, e saberás apenas
desistir-te.

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a Goya por João-Maria

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Francisco de Goya y Lucientes 025.jpg Francisco de Goya, Procesión de disciplinantes, 1812–1819

«a proporção, a proporção, tudo
na sua proporção»

por-vezes creio, indignamente, que um ferno cresce
entre o músculo do meu braço direito, estiolado,

não é curioso pensar que crescesse deste modo,
afinal, toda a escuridão precisa de luz
que a contraponha.

O perecimento da vontade guarnece o torpor
com túlipas cinéreas, adornos nas rachas
do movimento. A linguagem
é violenta em cada dimensâo, espaço endurecido
onde se produzem as horas negras de espera,

espera que cresce,
espera que cresça, atrofiado,
que espore sobre a podridão.
A honestidade térrea findará, o prémio
da conclusão das marés, um ente pálido
ou um fragmento cendrado da Lua.
Satélites rebentarão como sementes
numa inflorescêscia cósmica.

No exôdo, virão os sachos de estanho puro
escardear os descobrimentos da ferida,
músculo, cartilagem, mebrana, osso,
lacerados num batismo de sangue,

hão-de ruir planetas sem qualquer ruído,
morrerão milhares, morrerão…

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a Restout por João-Maria

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Restout Morpheus, Restout, c.1771

É o sonho de Morfeu, a luz emitente, indentada,
rebatendo num quarto encarnado, puxando
a tessitura dos ângulos vivos,

ser Homem no murmúrio, talvez nem isso,
talvez nem Homem; um centro de névoa
miserável, dúbia de si própria que,
incansável, empedernida,
se paralisa. Uma Roma isolada
e distante dos dias, faminta dos impérios,
na penumbra duma pedra una, atingida
pelo opróbrio da gravidade.

Por-ventura, alguém me restaura o sonho
numa injecção de fleuma, as flores suspiram
na folga do anúncio, as árvores decíduas
sangram a sua sensualidade como rios sólidos,

o murmúrio retorna, um Verão, um Inverno,
o tempo coaduna-se num soco atemorizante
envolto de lâminas. Tudo se perde,

o murmúrio assevera essa perda, alimenta-se
do silêncio que ergue.

Os Reinos de Gente levantam vastas igrejas
num caleidoscópio de nomes, entidades
reluzentes, brilhantina em cabelos negros,
levantam pontes, conectam essa vastidão
com um quadro de linhas fauvinistas,

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a McCubbin por João-Maria

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Princes_Bridge_Frederick_McCubbin Princes Bridge, Frederick McCubbin, 1908

O sítio é sempre estranho; a casa
enterrou-se no imo das águas;

amêndoa, o hálito do abandono,
as palavras não florescem
nas ranhuras do metal,

as guerras mentais estendem
os seus dedos longilíneos
perscrutando os estames

vazios, buracos brancos nas veias do céu
frisados pelo último pulso da noite.

Há artes na amnésia que pertencem
somente às aljavas prateadas dos arcanjos;

artes que são flechas embebidas em ácido
cobiçadas apenas por carnes no domínio
da lucidez absoluta dos seus demónios.

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